Quinta, 10 de Agosto de 2006

Arquivo Diário

Episódio da Queda da Bastilha

Publicado por Gerente Editorial em 10 Ago 2006 | sob: Editor, Textos Publicados, Episódio da Queda da Bastilha

por Nicola Aslan

“Desde o ano de 1780, que a França atravessava uma grande época de escassez de gêneros alimentícios. A rapidez e a amplidão das trocas internacionais que, nos nossos dias, continuamente nos fornecem, vindos dos pontos mais afastados do globo, os elementos necessários à subsistência, fazem com que não conheçamos hoje essas terríveis crises de fome que outrora, por vezes, flagelavam os países. “A escassez, escreve Taine, permanente, prolongada, há já dez anos, agravada pelas próprias violências de que era a causa, exagerava até à loucura todas as paixões”. “Quanto mais se aproximava do 14 de julho, refere uma testemunha ocular, tanto mais essa escassez aumentava”. Schmidt conta-nos que em virtude da má colheita, o pão encarecia constantemente desde o princípio do ano 1789. Tal estado de coisas era aproveitado pelos perturbadores que pretendiam levar o povo aos maiores excessos: esses excessos, por seu lado, intimidavam o comércio. Cessaram os negócios; numerosos trabalhadores ficaram sem pão…
Assim se formou, nos fins do antigo regime, aquilo a que Taine, com tanta felicidade, chamou de anarquia espontânea. Nos quatro meses que precederam. a tomada da Bastilha, deram-se em França mais de trezentos motins. Em Nantes, a 9 de janeiro de 1789, a Casa da Câmara foi assaltada e as padarias saqueadas. Tudo isto se fazia aos gritos de “viva o rei!”
Em Bray-sobre-o-Sena, no dia 10 de maio, campônios armados de facas e cacetes obrigaram os rendeiros a diminuir o preço dos cereais. Em Ruão, a 28 de maio, saquearam os cereais, do mercado. Na Picardia, um antigo carabineiro põe-se à frente de um bando armado que invade as aldeias e rouba o trigo. Por toda parte, casas totalmente roubadas.
“Em Aupt, o Sr. de Montferrat, porque se defendeu, foi “cortado em pequenos pedaços”. Em Sayne, a população traz um caixão para defronte da casa de um dos principais habitantes; dizem-lhe que se prepare para morrer e que lhe darão a honra de o enterrar. Consegue fugir, mas a sua casa foi posta a saque. Entre centenas de casos, citamos antes, ao acaso.”
“As imediações de Paris vivem em pleno terror. Correspondências, ainda inéditas, guardadas nos Arquivos nacionais, mostram toda a gravidade da situação. Bandos de vagabundos armados percorrem a província, saqueiam as aldeias, roubam as colheitas. São os “salteadores”. Esta expressão repete-se a cada passo nos documentos da época e cada vez mais, à medida que se aproxima o 14 de julho.
“São verdadeiras quadrilhas constituídas por trezentos, quatrocentos, quinhentos homens. Em, Coshe, em Orleans, em Rambouillet, por toda a parte os assaltos limitam-se ao roubo dos cereais. Nas diferentes localidades das cercanias de Paris, a população organiza-se militarmente. Burgueses armados fazem patrulhas contra os salteadores. De todo o país se reclamam do rei tropas para a defesa. A cidade de Versailles teme ser invadida por estes bandos e pede proteção ao rei: as cartas da assembléia municipal conservadas nos Arquivos nacionais são bem elucidativas a respeito.
“Por essa ocasião foram concentradas tropas nas cercanias de Paris; a sua permanência foi habilmente explorada pelos oradores do Palais Royal, a quem essas tropas incomodavam. Registramos que de fato o rei não tinha o direito de fazer permanecer tropas em Paris; isso era privilégio da cidade e de outras grandes cidades francesas, especialmente Tolosa e Bordéus. Que estas tropas não eram destinadas a atuar contra os parisienses, prova-o a correspondência secreta de Villedeuil, em que nos mostra a Corte insistentemente recomendando as reservassem para a defesa das localidades vizinhas diariamente expostas, e para assegurar o livre trânsito dos comboios de víveres, especialmente os de cereais que se dirigiam para Versalhes e Paris. Os bandos formavam-se em volta da capital.
“Os oradores do Palais Royal não tiveram dúvidas em convencer muita gente de que a entrada de Breteuil para o ministério, pressagiava uma “Saint-Barthelemy de patriotas”. A agitação tomou-se tão viva, as calúnias contra a Corte e o governo repetiram-se tanto e de tal forma, que a Corte, para evitar até as possíveis aparências de uma “Saint-Barthelemy” ordenou o afastamento das tropas, saindo ela própria de Paris.
Camile Desmoulins continuava, no entanto, a proclamar: “Venho de sondar o povo. A minha cólera contra os déspotas transformou-se em desespero. Não vejo os grupos, apesar de vivamente emocionados e consternados, suficientemente emocionados e consternados, suficientemente dispostos para um levantamento… Fui mais arrastado para esta tribuna do que trazido pela minha própria vontade. Mal que a ela subi, vi-me cercado por uma multidão imensa.
Eis aqui o que lhes disse e que nunca mais esquecerei: Cidadãos! Não há um momento a perder. Venho de Versalhes; Necker foi demitido; esta demissão é o toque a rebate de uma Saint-Barthelemy de patriotas; logo à noite todos os batalhões suíços e alemães sairão do Campo de Marte para nos assassinarem. Só um recurso nos resta: correr às armas!”.
Não estavam tranqüilos os parisienses, mas não eram os batalhões suíços e alemães que lhes causavam medo. O autor da Quinzena memorável, apesar de muito dedicado ao movimento revolucionário, reconhece que durante os acontecimentos de 12 e 14 de julho, todas as pessoas de bem se meteram em casa. E enquanto estes e a tropa se retiravam, a lama subia à superfície. Durante a noite de 12 para 13 de julho, a maior parte das barreiras onde se cobravam os impostos, foram assaltadas, saqueadas, incendiadas. Salteadores armados de lanças e cacetes percorriam as ruas, ameaçando as casas onde os burgueses se enclausuravam, tremendo de medo. No dia seguinte, as padarias e lojas de vinho foram pilhadas…”
“Durante a noite de 13 para 14 de julho foram saqueadas as padarias e as tabernas. O padre Morellet, ilustre enciclopedista que esteve preso na Bastilha no reinado de Luís XV, escreve:
“Passei uma grande parte da noite de 13 para 14 às janelas da minha casa, na rua de Saint-Honoré, a ver bandos de homens da mais vil populaça armados de espingardas, espetos, chuços, obrigando a abrir as portas e a dar-lhes de comer, beber, dinheiro e armas”.
Mathieu Dumas descreve igualmente, nas suas Lembranças, estes vagamundos esfarrapados, alguns quase nus e com fisionomias pavorosas. Durante esses dois dias e essas duas noites, diz Bailly, Paris correu o risco de ser saqueada, e, se de tal se salvou, foi devido à guarda nacional…
O autor da História Autêntica, que deixou a mais completa descrição da época da tomada da Bastilha, com muita razão diz: “O motim começou no dia 12 de julho, à noite”. Constituiu um conjunto de desordens e ladroeiras; nas quais a tomada da Bastilha ocupou um lugar, brilhante sem dúvida, mas está de tal forma ligada a essas desordens e ladroeiras que constituem um todo único. Surgiu radiante o Sol da manhã de 14 de julho. Uma grande parte da população tinha ficado em pé durante toda a noite. O dia veio encontrá-la com as suas preocupações e receios. Ter armas era o desejo de todos; os burgueses e os amigos da ordem, para se defenderem; os desordeiros, de que uma parte fora desarmada para novamente arranjarem meios de ataque e pilhagem. Correram aos Inválidos, onde existiam os mais importantes depósitos de armas. Foi o primeiro ato violento do dia. A multidão conseguiu dali levar vinte e oito mil espingardas e vinte e quatro bocas de fogo. E como se sabia que na Bastilha existiam grandes depósitos de munições de guerra, depois de se ter gritado: “Aos Inválidos!”, gritou-se: “A Bastilha!”…
“No dia 14 de julho de 1789, pelas oito horas da manhã, os vereadores da Câmara Municipal foram procurados por alguns habitantes do Bairro Santo Antônio, que se queixaram de que os canhões colocados nas torres da Bastilha ameaçavam o bairro.
Estas peças eram destinadas às salvas em dias de gala, e pela sua colocação, de forma alguma podiam ser prejudiciais aos bairros vizinhos. Alguns dos vereadores foram à Bastilha onde de Launey, o governador, os recebeu com todas as deferências convidando-os para almoçar e, satisfazendo o pedido daqueles, mandou retirar as peças das suas canhoneiras.
“Foi então, diz Funck-Brentano, pela primeira vez, que, vendo o erro que tinha cometido em os deixar avançar até a primeira ponte, o Sr. de Launay dá ordens aos soldados para fazer fogo, pondo em desordenada debandada essa canalha que tinha mais brutalidade que bravura; e é aqui que se começa o caluniar o governador, de quem, através dos tempos, se tem dito que ele proferiu palavras de paz; que a povo avançara a coberto dessas palavras de que resultou o assassinato de muitos. Esta pretensa traição de Launey, rapidamente espalhada em Paris, foi um dos acontecimentos do dia. É desmentida, não só por todas as narrações dos sitiados, mas também pelos próprios sitiantes e repelida modernamente por todos os historiadores …
“Tendo encontrado no pátio das casernas a linda menina de Mensigny, filha do capitão da companhia de Inválidos da Bastilha e como alguns supuseram ser a menina de Launay, arrastaram-na para junto dos fossos e, por gestos, fizeram compreender à guarnicão que a queimariam viva se esta não se rendesse. Deitaram a desgraçada criança, desmaiada, sobre a palha a que lançaram fogo. O Senhor de Morwigny assiste do alto das torres a esse bárbaro espetáculo, e ao querer lançar-se em socorro da filha, é morto com dois tiros. Duguesclin nunca sonhou com tais processos: para obrigar as praças sitiadas a renderem-se. Graças à coragem do soldado Aubin Bonnemère, a pobre menina foi salva…

“A Bastilha não foi tomada à viva força, rendeu-se, antes de ser atacada, pela palavra que tu tinha dado, cobre a minha fé de oficial francês, de que nenhum mal seria feito- àqueles que se rendessem” Confiante nessa palavra, de Launay rendeu-se e teve a cabeça decepada, pouco, a pouco, a navalhadas.”

A REVOLUCÃO FRANCESA

Colaboração Ir Wagner Veneziani Costa

Cronologia

Em seis anos, a Revolução Francesa teve muitos avanços e recuos. Nessa cronologia estão os fatos mais marcantes desde a convocação dos Estados Gerais (1789) até o golpe do 9 Termidor (1794):

1789
• Março: os camponeses se revoltam nos departamentos de Provença, Picardia e Cambresis;
• 5 de maio: sessão de abertura dos Estados Gerais, que foram convocados pelo Rei Luís XVI, para resolver a crise;
• 17 de junho: o Terceiro Estado (povo e burguesia), um dos três grupos dos Estados Gerais, proclama-se Assembléia Nacional;
• 9 de julho: a Assembléia Nacional proclama-se Constituinte;
• 11 de julho: demitido o ministro das Finanças, Jacques Necker, um progressista; o descontentamento cresce;
• 12 de julho: vários amotinamentos, incêndios e refregas;
• 13 de julho: formada uma milícia burguesa;
• 14 de julho: o povo toma a Bastilha – o símbolo do absolutismo francês;
• 20 de julho: inicia o chamado “grande medo”, pânico geral e mais revoltas;
• 4 de agosto: a Assembléia vota a abolição parcial de privilégios feudais;
• 26 de agosto: votação da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão;
• 5 e 6 de outubro: as mulheres marcham a Versalhes e trazem Luís XVI para Paris.
1790
• Maio: discutidos os direitos de paz e guerra. O conde de Mirabeau vende seus serviços ao Rei;
• 31 de agosto: massacre dos soldados suíços que estavam amotinados em Nancy.
1791
• 20 a 21 de junho: Rei Luís XVI e sua família fogem de Paris, mas são detidos em Varennes;
• 15 de julho: a Assembléia Constituinte desculpa a fuga do Rei;
• 17 de julho: La Fayette é acusado de atirar contra os grupos que exigiam a deposição do Rei, no Campo de Marte;
• 14 de setembro: Luís XVI jura fidelidade à Constituição;
• dezembro: a França se prepara para enfrentar os exércitos estrangeiros.
1792
• 23 de janeiro: agitações contra a falta de café e açúcar;
• 15 de março: formado o ministério girondino;
• 24 de abril: Rouget de Lisle compõe a Marselhesa;
• 13 de junho: cai o ministério girondino;
• 11 de julho: a Assembléia Legislativa (eleita após a dissolução da Constituinte) declara: “A pátria está em perigo”;
• 10 de agosto: mais insurreições; o povo assalta o palácio das Tulherias, massacrando os guardas suíços do Rei; é convocada a Convenção Nacional - o órgão máximo;
• 2 a 6 de setembro: o povo massacra os contra-revolucionários que estão nas prisões;
• 20 de setembro: o Estado rompe com a Igreja Católica; fica instituído o divórcio;
• 21 de setembro: abolição da monarquia;
• 11 de dezembro: inicia o processo de acusação contra Luís XVI.
1793
• 21 de janeiro: guilhotinamento de Luís XVI;
• 10 de março: instituído o Tribunal Revolucionário, Danton é o ministro da Justiça;
• 5 de abril: instalado o Comitê de Salvação Pública - um dos braços da Convenção Nacional;
• 31 de maio a 2 de junho: 27 deputados girondinos são presos em Paris, acusados de conspiração;
• 10 de julho: reforma do Comitê de Salvação Pública; Danton é afastado;
• 13 de julho: Marat é apunhalado dentro de uma banheira;
• 17 de julho: abolição definitiva, sem indenizações, dos privilégios feudais;
• 27 de julho: Robespierre assume o Comitê de Salvação Pública;
• 4 e 5 de setembro: o “Terror” entra na ordem-do-dia;
• 17 de setembro: aprovada lei que permite executar suspeitos;
• 5 de outubro: entra em vigor o calendário republicano;
• 16 de outubro: execução da Rainha Maria Antonieta;
• 31 de outubro: execução dos girondinos.
1794
• 24 de março: executados os seguidores de Jacques Hébert;
• 30 de março: guilhotinamento dos dantonistas;
• 10 de junho: reorganização do Tribunal Revolucionário; início do “Grande Terror”;
• 22 e 23 de junho: falham as tentativas de conciliação;
• 27 de julho: Golpe do 9 Termidor. Robespierre é acusado de tirania e guilhotinado, com 22 dos seus partidários, no dia seguinte.