A Paixão de Cristo

Prefácio

A Paixão de Cristo, de Mel Gibson, tornou-se um dos filmes mais polêmicos já produzidos e já é um estouro da cinematografia. Seus defensores entusiasticamente o consideram uma das mais comoventes e influentes obras de arte religiosa já criadas. Mas os detratores argumentam com comparável veemência que a violência e o sangue contidos no filme, seu alegado anti-semitismo, uma abordagem peculiar da mensagem cristã, e uma falta de correção histórica e bíblica fazem dele nada mais que uma espécie de propaganda política. O padre Thomas Rosica elogiou o filme como uma das grandes obras-primas da arte religiosa, mas o humanista secular Paul Kurtz o considera uma arma política nas mãos da Direita Religiosa. Os críticos de cinema dividem-se no julgamento, dando ao filme algo entre zero e cinco estrelas. Independentemente do que se acha do filme, porém, seu impacto pessoal e social é inquestionável. Discussões acerca do filme proliferam em toda parte, e não muito tempo atrás correu a notícia de que um ministro cristão no Brasil morrera de ataque cardíaco após ver o filme, tamanha teria sido sua emoção. A Paixão mexe profundamente com as pessoas.
Quem está certo e quem está errado? Boa pergunta. Mas talvez mais importante que a pergunta sejam os motivos existentes por trás dela. Muitas outras obras de cultura popular levantam questões importantes e geram controvérsia. Filmes como Matrix ou O Senhor dos Anéis apresentam interessantes dilemas a respeito do bem e do mal, da natureza da realidade, do inevitável fim da humanidade, do tempo e da moral, da felicidade, do livre-arbítrio e do determinismo, por exemplo. Diferentemente de muitas dessas obras, porém, A Paixão vai além do interesse teórico e mergulha no coração das acalentadas crenças e valores de muitas pessoas. Embora outros filmes possam abordar questões semelhantes àquelas propostas por esse filme, a obra de Gibson as coloca em um contexto religioso e social que lhes dá uma especial significância. Vendo o filme, as platéias não conseguem deixar de se sentir perturbadas e desafiadas por uma mensagem que diz respeito às próprias raízes de sua fé e à compreensão do mundo à sua volta. A importância do próprio Jesus, a trágica história de sua vida e a subseqüente história do Cristianismo atingem nervos mais profundos que uma história de ficção científica como Matrix ou uma fantasia como O Senhor dos Anéis. Afinal, ninguém teve maior impacto que Jesus na história do mundo. Já morreram pessoas por causa da mensagem cristã e outras porque a rejeitaram; portanto, não estamos falando aqui de um assunto banal. A Paixão desafia tanto os cristãos quanto os não-cristãos a reexaminar a história do julgamento, da acusação e da crucificação de Cristo, vista sob a perspectiva apresentada no filme.
Uma obra assim tão poderosa oferece uma oportunidade incomum de levantarmos e abordarmos alguns dos temas filosóficos mais fundamentais a respeito da realidade humana em um contexto em que o público geral consegue se identificar com eles. A Filosofia começou com controvérsia e vive de controvérsia; por isso, era de se esperar que ela absorvesse alguns dos desafios propostos por A Paixão de Cristo. Esta coletânea de ensaios trata de alguns deles. Começa com um capítulo que traz a pergunta fundamental: Quem é Cristo? Somos levados a considerar o modo como a descrição que Gibson faz da Paixão de Cristo e do excruciante sofrimento por qual ele passou contribui para a compreensão da identidade de Cristo.
Isso nos leva a uma das duas perguntas mais debatidas acerca de A Paixão, que é também o título da primeira parte do livro: “Cristo tinha de sofrer tão violentamente?” Obviamente, Gibson não só achava que sim mas também julgou necessário retratar a violência no filme, o que nos faz perguntar como essa violência nos é compreensível e em quais condições ela pode se tornar inteligível. Daí chegamos à noção do sacrifício como redenção. Será que a profundidade do pecado humano exige o tipo de sofrimento por que Jesus teria suportado, como se vê em A Paixão? Se exigir, então o que isso nos diz sobre a humanidade, o pecado e o Cristianismo? Esse sofrimento faz sentido, tanto como sacrifício quanto cinematograficamente? A Paixão distorce a pessoa integral de Cristo, concentrando-se no sangue e na violência? E essa ênfase contribui para o valor do filme como obra de arte?
A segunda pergunta mais debatida a respeito de A Paixão tem a ver com seu suposto anti-semitismo e o envolvimento dos judeus na morte de Cristo. Assim, a seção seguinte do livro é intitulada: “A Paixão é anti-semita?” O filme, por acaso, culpa todos os judeus pela morte de Jesus? É um filme racista? E leva em conta o fato de que Jesus era um judeu bem inserido em uma tradição mística judaica? O que explica as diferentes reações que as pessoas têm ao filme, particularmente no contexto do anti-semitismo?
No coração do filme, e relacionada às perguntas feitas até agora, está a compreensão da mensagem de Deus e da relação entre fé e verdade. Mais importante para os filósofos é a questão do que é a verdade em si e de como se relaciona à fé. De um modo geral, como se pode conhecer a verdade e, especificamente, como se pode saber que aquilo em que se acredita pela fé é verdadeiro? Ainda mais contundente, se os Evangelhos forem interpretados como a palavra de Deus, precisamos refletir sobre o melhor modo de abordá-los e perguntar se Gibson efetivamente trata desse desafio no filme. Como a transferência da palavra para o filme afeta a mensagem das palavras? E, por fim, o que devemos pensar das mulheres que amavam Jesus? Qual é a verdadeira importância delas na história da Paixão? Esses temas são explorados na parte intitulada “O que é a verdade?”
Essa seção é seguida por uma denominada “Por que Cristo foi morto?”, apontando tanto para as razões quanto para o significado da morte de Cristo, que envolve a redenção e seu sentido. Qual é a importância de seu auto-sacrifício? O que implica a cruz, especificamente para os filósofos, e em geral para o mundo? Ela responde a algumas das perguntas para as quais os filósofos não têm resposta? Na verdade, a morte de Cristo se compara à de outro grande mártir, Sócrates, que é considerado o filósofo por excelência?
A escolha de Cristo em morrer pela humanidade leva naturalmente a temas como liberdade, pré-conhecimento divino e responsabilidade moral, que se encontram tanto no centro da fé cristã quanto no de A Paixão. Cristo teria a liberdade de escolher a morte quando, como Deus, ele sabia desde toda a eternidade que faria isso? O tema da liberdade aplica-se somente a Cristo como Deus. Os seres humanos também enfrentam um problema, que pode ser inserido no contexto da situação de Judas: Como Judas pode ser considerado moralmente responsável pela traição de Jesus quando Deus sabia que ele agiria assim e que sua ação era necessária para a realização da redenção humana? Logicamente, surgem daí questões pertinentes a como os seres humanos são capazes de resistir ao mal, e qual é a melhor maneira de fazer isso. E isso nos traz de volta ao comportamento não-violento de Cristo e a seu ensinamento da não-violência. Esses temas são explorados em uma seção encabeçada pela pergunta: Quem é moralmente responsável?
Esses tópicos são explorados por 20 filósofos e estudiosos bem conhecidos nos ensaios curtos, diretos e provocantes deste volume. Suas experiências e seus conhecimentos tornam os assuntos por eles abordados dinâmicos e desafiantes, ao mesmo tempo respeitando sua natureza séria. Todos se envolvem fortemente, talvez apaixonadamente, com as questões que discutem aqui, mas partem de diferentes perspectivas oriundas de convicções profundamente enraizadas. Alguns dos autores são cristãos evangélicos, outros católicos romanos, outros judeus, pelo menos um é mórmon, alguns não seguem religião alguma e outros são militantes anti-religiosos. Também estão representados os dois sexos e diferentes formações étnicas, todos juntos proporcionando uma boa amostra dos diversos pontos de vista das pessoas em relação ao filme e aos temas políticos por ele levantados. Os textos visam tanto à profundidade quanto à acessibilidade e devem gerar discussão e reflexão.
O livro como um todo não toma partido nenhum nas controvérsias que cercam A Paixão. Ele tem a intenção de ser um livro de Filosofia, embora boa parte de seu conteúdo esteja enraizada na religião e dela trate; e a tarefa da Filosofia é aprofundar e ampliar o nosso entendimento de tópicos que costumam ser abordados superficial e resumidamente. Não é uma apologia nem um ataque a este ou àquele ponto de vista específico, embora exponha problemas e temas que vão muito além das fronteiras de um exercício acadêmico, incitando os autores a tomar partido. Cabe àqueles que lerem os ensaios decidir o que pensar; estamos apenas oferecendo um ponto de partida.

Wagner Veneziani Costa